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segunda-feira, 6 de agosto de 2018

Deixa Eu Te Contar || A Glória Da Cidade Natal




"Mesmo sendo uma pequena história, ainda assim é encantadora. Wes escreveu um conto que nos fez se colocar no lugar do personagem e sentir todos os sentimentos que ele estava passando, além do cenário que é imaginado com facilidade. Fascinante <3 ” Kah (Blog Cupcakeland)







A glória da cidade natal

A sensação de voltar é indescritível. 15 anos... Foi o tempo que levei para me reconstruir, para melhorar, evoluir. Eu sei que foi a escolha certa. E não me arrependo muito de tê-la feito.

Quando o táxi passa sobre a Ponte Crusby, que nessa época do ano está coberta de neve, uma nostalgia me invade e sou obrigado a parar naquele lugar que fora um marco na minha vida. No meu passado. 

Ainda dói pensar nele como passado. 

Peço para o taxista esperar alguns minutos, enquanto desço do carro afim de caminhar, sob a neve fria, até o outro lado da ponte. Ele diz, em um tom quase ríspido, que tudo bem, mas não devo demorar, pois a previsão anuncia uma nevasca que chegará em poucas horas. Apenas aceno afirmativamente com a cabeça.

Na minha trajetória até o outro lado da ponte, penso em como senti falta desse lugar. Dos altos prédios, das ruas arborizadas, dos museus e monumentos. Da minha cidade.
Quantos momentos inesquecíveis e dolorosos. Quantos sentimentos espalhados por cada uma daquelas ruas.

Absorvo o ar frio que me preenche e sigo de volta para o carro, com a certeza de que minha estadia aqui me trará a memória tudo que vivenciei nessa cidade. Tudo. Pensar nessa palavra me traz um arrepio a espinha, e com ele um certo medo. Medo da dor. De lembrar. 

Volto para o carro e grito mentalmente para que o motorista parta. Como se ele entendesse o que pensei, ele segue com o carro até o meu desembarque final. 

Encaro meus olhos castanhos e meu rosto negro com a barba por fazer no espelho, e vejo meu semblante meio assustado. Desvio o olhar de mim mesmo e busco meu celular na bolsa, com o propósito de passar o tempo enquanto não chegamos ao meu destino.

Ao ficar no início da minha antiga rua, pago ao motorista e pego minha mala. A mala que ele me deu. Nesse momento penso em como as feridas, que estão aparentemente cicatrizadas, podem doer. Muito. 

Tento me livrar dos diversos pensamentos que surgem em minha cabeça e me dirijo o mais rápido que consegui para minha casa. Bom, a casa dos meus pais.

Ao andar por aquela rua, pelo caminho que fiz tantas vezes, sou invadido por um sentimento familiar e estanho. Vejo as pessoas que conheci indo para suas casas, quando vejo um jovem garoto vindo em minha direção, que para diante de mim e pergunta: 

— Moço, o senhor precisa de ajuda? Está perdido? A voz dele é de alguém que de fato quer ajudar. Uma coisa difícil de ser vista. 

— Obrigado. Eu não estou perdido. Apenas vagando. 

Ele faz um movimento positivo com a cabeça, como se entendesse que estou perdido em meus pensamentos e segue seu caminho. 

Continuo andando e ao ver um enorme carvalho no fim da rua, o rosto do Lucian aparece nitidamente em minha mente e começo a chorar, mas não paro de andar. 

Lembro de quando o conheci, ambos com dezessete anos, não sei dizer se foi amor à primeira vista, porém assim que o vi, uma conexão entre nós se estabeleceu e eu sabia que ficaríamos juntos. Ele era o meu mais novo morador da rua e fiquei responsável por ajudá-lo a se estabelecer na escola e na vizinhança, assim nos aproximamos bastante e namorar foi apenas uma consequência da relação de amizade e confiança que construímos. 

"A vida é um sopro." As pessoas dizem isso o tempo inteiro, mas no fundo nunca pensam na profundidade que essa frase tem. 

No fim do ensino médio, descobrimos que o Lucian tinha uma doença terminal. Aquilo abalou a todos nós, mas ele, que deveria ser o mais afetado por aquilo, se manteve calmo e sereno o tempo inteiro até o dia que ele se foi. Ninguém pode dizer que ele não aproveitou o pouco que viveu como um furacão, foi rápido sim, mas não foi um sopro. Ele era intenso, forte. E saber daquilo me destruiu por completo. Eu tinha milhares de planos para o futuro. Nós tínhamos. E tivemos que ver um por um escapar do nosso alcance. Minha única alternativa foi fugir de tudo aquilo, de toda aquela dor sufocante e ir estudar em uma universidade no outro lado do oceano. Para ficar o mais longe que eu pudesse de tudo aquilo que me lembrasse dos abraços quentes e sorrisos que enchiam o ambiente de luz do Lucian. E aqui estou eu, de volta ao lugar que me deu tudo para depois arrancar de mim.

Quando me dou conta, já estou parado em frente da casa dos pais dele, e o carvalho continua ali, com seus galhos afrontosos e umas poucas folhas que ainda ousam resistir ao frio do inverno. 

Me aproximo daquela grandiosa árvore e começo a procurar algo que não sei bem o que é, como se meu inconsciente quisesse me mostrar alguma coisa importante. Vou passando minha mão pelo tronco firme e gélido do carvalho quando sinto uma ondulação. Afasto a neve que cerca aquela área e vejo ali as iniciais "L + T" grafadas dentro de um coração. Lucian e Taylor. Nós dois. Pode parecer clichê, mas minha alegria ao ver aquilo é imensurável. Percebo que ainda não havia parado de chorar, e agora estou soluçando desesperadamente. Tento parar, respirar para me recuperar um pouco antes que alguém me veja aqui. 

Em um ato inconsciente me atiro naquele tronco e o abraço. Fecho os olhos e imagino o Lucian me vendo de onde quer que ele esteja. Sussurro um Eu ainda amo você e como se fosse uma resposta, uma pequena folha se solta da árvore e pousa em meus lábios e naquele instante me sinto feliz. Imensamente feliz. 

Abraçar aquela árvore, que representa tanto para mim, me mostra que não vou mais aguentar coisas ruins. Mostra que ainda estamos unidos, que não devo tolerar a dor, que estar aqui é uma dádiva do meu mundo, é quem eu me tornei. 

Solto o carvalho e me direciono a minha antiga casa. Ao olhar para trás, percebo que não haveria melhor lugar do que esse para eu estar agora: na minha cidade natal. Onde as memórias são sempre frescas e as pessoas que conheci, são a maravilha de agora. 




sexta-feira, 4 de maio de 2018

Deixa Eu Te Contar || Vida



'Um conto... Apenas um conto. Mas um conto que te faz refletir e para muitos pode ser um "tapa na cara". Uma mente aprisionada em um corpo fazendo o que resta a fazer recordar do que foi bom e virou abandono. O Wesley me surpreendeu ao fazer com algumas palavras, poucas frases um relato emocionante de uma Vida, um texto que toca o coração e o faz ficar apertado, que me fez querer entrar na história e segurar a mão e dizer eu estou aqui. Mas que também me fez pensar o que realmente vale a pena.' (Gilvania Rocha do Blog Livros Em Retalhos)



(Imagem Retirada da Internet)


Acho que hoje seja um bom dia para morrer.

Não sei que dia é hoje. Quarta? Segunda? Sexta? Afinal, de que isso importa se o dia não vai impedir a minha morte?

Ouço Lídia se aproximar. A essa altura, é impressionante que eu ainda consiga ouvir alguma coisa, estou certa disso. Ela chega ao meu ouvido e diz que vai buscar o meu remédio, o que não demorará mais que cinco minutos caso ela não encontre nenhuma outra cuidadora pelo caminho. Apenas mexo a cabeça de forma afirmativa. Não tenho mais forças para falar nenhuma palavra. Fazem algumas meses que a minha comunicação se reduziu a isso.

 Sempre tive muito vigor, alegria, animo para enfrentar a vida. Nunca imaginei que terminaria os meus dias inválida, em uma cama imunda, sozinha, abandonada como uma cachorra de rua doente. Esquecida.

Isso dói.

 Pensar que uma vida dedicada a família não serviu para muita coisa. Para nada na verdade. Hoje mais do que nunca percebi isso. Quando é hoje mesmo?

Lembrar deles é a única coisa que me faz saber que tudo aquilo foi real, por mais que seja algo muito distaste de tudo que vivi nos últimos anos. Ou seriam décadas? Não lembro. Não me importo.

Minha mãe sempre disse que eu deveria casar e ter filhos para ter uma boa vida e não ficar sozinha quando ficasse mais velha. Ela estava completamente enganada. Gostaria de dizer isso a ela, mas não posso, não agora. Talvez mais tarde eu a encontre diga pra ela.

Sempre me dediquei ao meu marido e aos meus filhos. Uma vida inteira. A minha vida inteira. E o que ganhei em troca? Abandono. Desprezo. Um quarto com outras quatro mulheres, tão velhas quanto eu. Tão sozinhas e esquecidas quanto eu.

Apesar da dor, permito-me lembrar. Eu não queria, mas acredito que já tenha perdido o poder de escolha também. Flashes repentinos me invadem. Acho que aquela história de que nossa vida passa diante dos nossos olhos quando vamos morrer é verdade.

Vejo ele rindo, duas crianças correndo pela grama. Estamos felizes. Ele me abraça, com ... amor? Damos as mãos e começamos a caminhar.. Logo a cena muda pra o primeiro dia de aula das crianças. Filhos gêmeos sempre tinha sido meu sonho e eu consegui realiza-lo. Os deixo na escola e quando eles se despedem eles falam que me amam. Amam? Na hora aquilo parecia verdade.  Nas imagens que aparecem em seguida eles já cresceram, não sei onde o pai deles está e  presumo que tinha morrido, estão carregando uma senhora que se debate desesperadamente. Percebo que aquela sou eu. Sinto as lágrimas escorrerem dos meus olhos.  Eles fizeram mesmo isso. Cortaram a minha existência da vida deles. Aqueles que um dia disseram que me amava, que jamais me deixariam só. Palavras vazias. Mentirosas.

Lídia aparece com um comprimido na mão e na outra traz um copo com água. Pelo que vi, ela não encontrou ninguém.

— Vamos dona Vida, está na hora do seu remédio.

Ela fala com uma animação tão falsa e robótica que morreria outra vez para não ter que vê-la novamente.

— Dona Vida? — Ela está gritando. Eu permaneço imóvel. — Acorde dona Vida! Acorde!

Continuo parada. Certamente gelada. Sem respirar.

Uma Vida morta. Vida sem vida.